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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ter filho não é pra todo mundo

Vamos ser francos: quem realmente tem capacidade para se dedicar a uma criança como deveria. Faça a análise antes de ter uma.

Por José Martins Filho, texto original no site Revista Galileu, link:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI236755-17774,00.html#.UmUPDSQOVME.facebook

Será que todos os seres humanos precisam ser pais? Não sei. Cuidar bem de uma criança, além de ser de sumária importância, dá um trabalho danado. Crianças choram à noite, nem sempre dormem bem, precisam de cuidados especiais, de limpeza, de banho, alimentação, ser educadas e acompanhadas até a idade adulta. E, principalmente: crianças precisam da presença dos pais, sobretudo as menores, que requerem a mãe na maior parte de seu tempo. Não é dando dois beijinhos pela manhã antes de ir para a creche, ou colocando a criança para dormir à noite, que será possível transmitir segurança, afeto e tranquilidade. Escuto muito a seguinte frase: “Doutor, o que interessa é a qualidade do tempo junto e não a quantidade”. Duvido. Diga ao seu chefe que você vai trabalhar apenas meia hora por dia, mas com muita qualidade. Certamente ele não vai gostar. Seu filho também não.

Sejamos sinceros, nem todo mundo está disposto a arcar com esse ônus. Talvez seja melhor adiar um projeto de maternidade, e mesmo abrir mão dessa possibilidade, do que ter um filho ao qual não se pode dar atenção, carinho e presença constante. Lembre-se que é preciso dedicar um tempo razoável: brincar junto, fazer os deveres de casa, educar, colocar limites.

Como fazer tudo isso e ainda continuar no mercado de trabalho? Usando seu horário de almoço para comer junto com seu filho. Fazendo visitas na creche durante o dia. Passeando no final de semana, em atividades em que a criança seja prioridade, como praia, parques, jogos em conjunto. Por favor, isso não inclui shopping center.

Sou obrigado a fazer todas essas coisas? Claro que não. Mas ser pai e ser mãe também não é uma obrigação, sobretudo nos dias de hoje em que a vida oferece infinitas possibilidades. Trata-se de uma escolha. E, como toda escolha, pressupõe que você abra mão de outras tantas. O que se propõe? A volta da mulher à condição de dona de casa? Também não. O que se propõe é a conscientização da paternidade e maternidade. A infância determina a vida de todos nós. Ela é fundamental para a existência humana. Na esfera psíquica, os primeiros dois anos significam a base da construção de uma personalidade saudável. A violência, a agressividade, a falta de ética, a amoralidade dos tempos modernos não são apenas fruto de dificuldades econômicas e sociais, mas da falta de amor, educação, limites.

Com a vida moderna, as crianças passaram a ocupar um papel secundário ou terciário na vida familiar. Lembre-se de que o futuro da humanidade vai depender dessas crianças que, provavelmente, chegarão aos 100 anos de idade. Fico triste quando, no consultório, a mãe não pode estar presente, ou o pai. E nem mesmo a avó: apenas a babá.

Deveríamos fazer uma análise tranquila antes da maternidade ou da paternidade. Queremos mesmo mudar nossa vida? Vamos ter condições de participar intensamente da vida desse novo ser? Se lograrmos essa consciência, tenho certeza de que o mundo irá melhorar. 

José Martins Filho é médico pediatra, autor do livro A Criança Terceirizada, professor e pesquisador do Centro de Investigação em Pediatria

E para complementar, assista ao vídeo de José Martins Filho falando sobre A Criança Terceirizada:

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A criança e o direito à verdade

Este é o título de um dos capítulos do livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, de Laua Gutman, editora Best Seller.

Nesta semana, em que encontramos apelo para presentear nossos filhos em todos os cantos que olhamos, pensei sobre o que realmente é importante para uma criança. O que realmente a torna feliz, tranquila, confiante, segura. Foi então que me lembrei deste extraordinário capítulo do também extraordinário livro de Laura e concluí: nada é mais precioso a uma criança do que a verdade.

A verdade aqui considerada refere-se aos aspectos exteriores, de tempo e espaço, e também aos aspectos interiores, aquilo que acontece comigo, que sinto, que desejo, que temo. A criança, e em especial os bebês, precisam conhecer a nossa verdade, ainda que ela não seja bela, pois só assim conseguem separar-se de nós e serem livres para a construção de seu próprio eu.

Tudo isso pode parecer lógico e até mesmo banal, mas é extremamente complicado pois não estamos acostumados a ir ao encontro de nossa verdade. Nesta linha de raciocínio, criar um filho requer um trabalho de autoconhecimento inadiável. É imprescindível que eu me conheça e tenha acesso à minha verdade para poder comunica-la a meu filho, preservando-o assim da angústia e do medo que estão em mim. Quando isso não acontece o filho produz o que a psicanálise chama de sintoma, e sofre.

“... o bebê nos obriga a nos conectar com a verdade, porque, quando não é assim, a materializa, ‘expressa-a’ no plano físico, vive-a em seu corpo.” Laura escreve ainda: “As crianças estão tão próximas de nossos corações, tão unidas à verdade íntima, que se transformam em tradutoras exatas. Vale a pena lhes dar atenção ou ao menos nos fazer as perguntas pertinentes. Só quando sabemos o que acontece conosco, ficamos em condições de contar a verdade a nossos filhos.”

Caras mães, o trabalho não será fácil, mas imensamente recompensador. O benefício é duplo pois somos nós e nossos filhos a sentir a liberdade de se conhecer a verdade!

Laura Gutman não nos deixa no desamparo diante de tudo isso. Ela nos dá dicas e caminhos para A BUSCA DA PRÓPRIA VERDADE.

“A verdade é sempre precedida da palavra ‘eu’. Porque a verdade é pessoal, refere-se ao que acontece comigo, ao que sinto, ao que desejo. Não é uma opinião, nem está subordinada ao que é certo ou errado.”

“A busca da própria verdade precisa de apoio. Creio que essa é a essência de qualquer iniciativa terapêutica ou de outra aproximação do campo espiritual de cada um. Muitas vezes, é indispensável pedir ajuda a um profissional,...”.

No dia-a-dia tenho tentado seguir o caminho mostrado por Gutman. Vezes há que consigo, e então me deparo com a maravilha e eficácia do método. Uma sensação de satisfação me invade ao perceber uma imediata mudança de atitude em minha filha. É como se ela disse “Ah!!! Agora entendi!!! Porque você não me falou antes!!!”.

O dizer a verdade à criança em nada tem a ver com privá-la da fantasia, do mundo das fadas e dos reinos de príncipes e princesas, tão necessários a ela. Dizer que a Fada da Noite passa em seu quarto para ver se está em sua caminha, ou que em sua boca mora uma coruja e precisamos manter sua casa limpinha, e ainda que são os anjos que acendem as estrelas, não tem nada a ver com o direito à verdade.

A criança tem direito à verdade e ao mesmo tempo necessita da fantasia. Saber colocar cada coisa em seu lugar cabe a nós, adultos. O esforço valerá a pena, teremos filhos mais saudáveis física e emocionalmente!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A ameaça

Esta semana a revista Veja traz um artigo intitulado “A ameaça da canção de ninar”, assinado pela psicanalista Betty Milan. O artigo é curto, simples, mas me proporcionou múltiplas análises e analogias.

A inspiração para este artigo, de acordo com Betty, veio de uma cena vista por ela na TV aberta, em que um pai (ator) embalava seu bebê e cantava a tradicional canção brasileira da cuca – “Dorme, nenê, que a cuca vem pegar / Papai foi pra roça / Mamãe foi passear”. De acordo com Betty, e na realidade isso é muito óbvio para qualquer adulto, a canção é ameaçadora, remete a criança à sensação de abandono total e ainda ao risco de ser pega por uma velha parecida com um jacaré. Algo realmente e inquestionavelmente aterrorizante.

Então a psicanalista questiona como explicar a vigência de comportamento tão assustador dos adultos em relação às crianças. Ela nos alerta de que nós, mães, pais ou qualquer outra pessoa que assuma a função de um educador, precisamos nos atentar para aquilo que dizemos. Que toda e qualquer palavra dita está compondo a formação daquela criança e tem consequências.

Este foi um dos pontos em que pude fazer um a analogia com o comportamento das mulheres em relação à assistência obstétrica que temos hoje. A relação de uma mulher grávida com o médico obstetra está baseada no medo e na ameaça (há algumas exceções, ainda bem!). É comum ouvirmos “você está colocando seu bebê em risco”, “isso pode causar danos cerebrais irreversíveis ao seu filho”, “você quer que seu filho tenha problemas?”, “assim seu bebê poderá morrer”. E é interessante como nós, mulheres, nos comportamos como crianças diante de tais ameaças. Ficamos paralisadas, aterrorizadas. Porém, é bom lembrar que já estamos grandinhas e não precisamos dormir profundamente para fugirmos deste bicho papão. Temos sempre a condição e a possibilidade de não nos deixarmos submeter pelo medo, diferentemente da criança.

Betty Millan vai além! Ela finaliza o artigo com um belíssimo parágrafo que transcrevo aqui:

“Ninguém é obrigado a procriar. A obrigação está fora de moda. Mas quem tiver filho precisa se ocupar dele durante a infância com devoção e inteligência, contrariando os hábitos, se preciso for. A vida não é fácil e, para evitar dificuldades futuras, a prevenção é sempre melhor do que o tratamento. Nós só nos esquecemos disso porque não somos educados para ser felizes, e sim para repetir o que os outros fizeram sem se questionar.”

Isso é simplesmente MARAVILHOSO! E nos dá, enquanto mães e pais, a noção de nossa responsabilidade e compromisso.

E eu, em um ousado ato de mais uma analogia, me arrisco a escrever:

“Ninguém é obrigado a ser obstetra. A obrigação está fora de moda. Mas quem o quiser precisa se ocupar das mulheres grávidas e seus partos com devoção e inteligência, contrariando os hábitos, se preciso for. O exercício desta profissão não é fácil e, para evitar complicações futuras, o natural é sempre melhor que as intervenções humanas. Nos esquecemos disso porque não somos formados para nos curvar diante da vida, e sim para repetir o que os outros fizeram sem se questionar.”

Bem, e mostrando que sempre temos opção, segue letra de uma canção de ninar que uso para embalar minha filha, adaptada de uma tradicional canção, com toques personalizados:

“Dorme, dorme, minha filha / Dorme um sono tranquilo / Dorme, dorme, minha filha / Meu anjinho encantador.

Que as bênçãos de Deus / Venham te proteger / E que os anjos do céu / Fiquem junto a você.

Já é hora de dormir / Hora de descansar / Um soninho bem gostoso / Já é hora de nanar.

Dorme, dorme, Laís / Dorme um sono tranquilo / Dorme, dorme Laís / Tenha um sonho feliz!”


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Vossos filhos não são vossos filhos

“Vossos filhos não são vossos filhos.



São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.


Vêm através de vós, mas não de vós.


E embora vivam convosco, não vos pertencem.


Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos.


Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.


Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.


Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.


O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.


Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.”

Gibram Khalil Gibram

Hoje, pela primeira vez, deixei minha filha sozinha na escola.

Vê-la entrando para salinha sem ao menos olhar para trás para dizer “tchau mamãe” fez-me lembrar da poesia de Gibram e do apego que desenvolvemos pelos filhos. Acreditamos que eles precisam de nós, quando somos nós quem criamos dependência deles.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Manifesto pelas Mães



O Grupo Cria é um grupo de mulheres que se uniram para lutar pelo seu direito de exercerem a maternidade de forma consciente. Elas criaram um manifesto lindíssimo que está descrito abaixo para vocês conhecerem. Quem se identificar pode entrar no site e também assinar o manifesto.
Boa leitura!!!


MANIFESTAMOS PELAS MÃES
Mãe que dá o melhor de si e convive com a cronica sensação de que nada é o suficiente.
Mãe de carne, osso e vísceras que, ao se perceber humana, sente-se cada vez mais distante do ideal de devoção da Santa Mãezinha. E por isso se culpa.
Mãe que comprou o sabonete com óleos essenciais, o iogurte com fibras, o desinfetante com cloro ativo, a fralda com bloquigel e mesmo assim seu filho não dormiu a noite inteira, seu marido se queixa e sua casa não é o templo limpo, perfumado e livre de insetos que aparece na TV.
Mãe mulher, dona de casa, profissional e amante, que segue passo a passo as dicas das revistas femininas para conciliar seus inúmeros papéis e virar “super”, mas ainda não encontrou sua capa.
Mãe cuja única preparação para a mais dramática mudança da sua vida foi o cursinho da maternidade e, se privilegiada, a decoração do quartinho e a compra do enxoval.
Mãe que vive em uma sociedade que a glorifica, ao mesmo tempo em que a obriga a terceirizar a criação dos seus filhos. Seja por necessidade, independência ou reconhecimento. Como se, em qualquer um desses casos, essa não fosse uma decisão extremamente difícil.
Mãe que se divide diariamente entre a administração do lar e da profissão, encarando múltiplas jornadas que a levam constantemente à exaustão física e emocional.
Mãe que se dedica de corpo e alma ao significativo projeto de criar uma criança, enfrentando um nível de cobrança superior ao de qualquer chefe ranzinza e cliente exigente. 365 dias por ano, 24 horas por dia. E mesmo assim é percebida como alguém que não faz nada. Até por si mesma.
Mãe pobre que, quando opta pelos filhos, é acomodada. Quando rica, é madame. E, quando profissional, é ausente.

MANIFESTAMOS PELA MATERNIDADE

E, portanto, pela liberdade de sentir. De seguir os instintos. De viver em plenitude emoções e sentimentos totalmente femininos. Pois negá-los, seria abrir mão daquilo que faz da mulher, um ser único.
Manifestamos pelo direito de cada mulher escolher o papel que melhor lhe cabe no momento. Sem se sentir pressionada, desmerecida ou julgada pelo que decidiu não ser.
Manifestamos por parir de forma saudável, humana e tranquila e que essa seja uma decisão consciente da mãe. Amparada por uma equipe de profissionais da saúde que a respeitam, orientam, acompanham e zelam pelo bem estar dela e do bebê.
Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar.
Manifestamos pela aceitação da metamorfose e da mudança de valores que a chegada de uma criança proporciona na vida de qualquer adulto. E pela valorização desta transformação na sociedade, como contraponto para a cultura do egoísmo e da juventude eterna.

MANIFESTAMOS PELO ATIVISMO ANÔNIMO E INCANSÁVEL DAS MÃES

Nas trincheiras domésticas de uma sociedade cada vez mais dominada pelas leis cruéis do mercado.
E apoiamos as mães que questionam. Que boicotam.
Que compram e deixam de comprar. Que sabem o que servem à mesa e o que jogam no lixo.
Que desligam a TV, controlam o videogame e a quantidade de açúcar.
Mães que tentam proteger a infância e não desistem diante do bombardeio de mensagens que estimulam a erotização e o consumo precoces.
Mães que empreendem, que inventam, que abrem mão, que buscam alternativas, que assumem o vazio e a sobrecarga. E promovem viradas.
Mães que brigam por uma escola melhor, mais humana e significativa; pública ou privada.
Que pensam globalmente e agem localmente, casa a casa, família a família.
E que administram seus lares, como se ali começasse a mudança que desejam para o planeta.

MANIFESTAMOS PELA TOMADA DE CONSCIÊNCIA FAMILIAR

Pela valorização do papel da mãe no seio da família e pelo fim das hipócritas tentativas de minimizar a diferença que a presença dela faz.
Pelo reconhecimento da vital importância da maternidade para a humanidade, e por ações sociais e políticas que valorizem e estimulem a atuação da mãe.
Por uma rede de relacionamentos que coloque novamente mulheres de diferentes gerações em contato, reconstruindo referências que foram deturpadas e estereotipadas pela mídia e pela sociedade.
Por mães unidas para estudar, compartilhar experiências e desenvolver novos pontos de vista para este tema milenar, universal e ainda tão incompreendido.
Por uma nova formação familiar, focada no bem estar integral dos seres humanos e não somente no bem estar material.
Por pais que valorizam a tomada de consciência materna, dando sua participação necessária para que ela floresça. Mesmo sem entendê-la completamente.
Por mães que partilhem com seus parceiros as responsabilidades, agruras e alegrias de se cuidar dos filhos, sendo entendido que eles pertecem aos dois, igualmente.
Manifestamos pela ausência de fórmulas, de guias práticos e de respostas prontas, pois cada mulher é livre para buscar seu caminho e desenvolver sua história. No seu tempo, no seu ritmo e na sua individualidade.
Manifestamos pela conciliação de uma maternidade moderna com uma maternidade mais plena.
Manifestamos por você e por nós. Pela Terra e por todos os filhos que dela vieram e ainda virão.

Manifestamos pelas mães!