domingo, 28 de setembro de 2014

Paradoxo ético, calamidade espiritual: aborto em questão - um texto de Paulo Batistuta

Compartilho aqui o texto do Dr. Paulo Batistuta, médico ginecologista e obstetra, ativista da humanização do parto e nascimento, produtor do vídeo educativo 'Sagrado' e autor do livro 'Parto: uma dimensão do gozo feminino'. Este foi um dos textos que usei como base para escrever meu post "Ser contra a legalização do aborto dentro do movimento de humanização do parto e nascimento." Agradeço ao Dr. Paulo Batistuta por me servir de inspiração e por permitir que compartilhasse seu trabalho. Segue o texto:

Tamanho real de um embrião de 11 semanas.

Paradoxo ético, calamidade espiritual: aborto em questão


Paulo Batistuta Novaes
Médico obstetra/ginecologista, mestrado pela UFES
Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes/UFES
Diretor da Associação Médico Espírita do Espírito Santo






Para nós espíritas e médicos resta-nos repudiar a inciativa do Conselho Federal de Medicina - CFM que declarou apoio à interrupção da gestação até a 12ª semana. Esta posição foi votada no I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina no Pará (6-8/03/2013), mas não foi representativa dos 400 mil médicos brasileiros, pois ocorreu sem consulta prévia e num evento restrito a um colegiado. Portanto, reflete apenas a opinião pessoal dos conselheiros participantes do evento, que também não foram unânimes nesta decisão.

Para justificar tal atitude, o CFM alegou que o aborto é a quinta causa de mortalidade materna no Brasil e que a análise epidemiológica permite concluir que abortos realizados ilegalmente têm um forte impacto sobre a saúde pública, contudo, não cita as fontes. Em verdade, esta fala não condiz com o atual panorama epidemiológico brasileiro5. Ele também evoca o elevado número de curetagens após aborto, ligando-as a abortos provocados e a mortalidade materna.

No entanto, estas assertivas do CFM devem ser questionadas segundo o estudo de Koch e cols1 (2012) que demonstra uma superestimação em 10 vezes da RMM relaciona ao aborto clandestino no México nos últimos 20 anos. Isto porque em estudos anteriores os pesquisadores inferiram dados faltantes nos prontuários hospitalares, inclusive subjetivos, relacionados à prática do aborto. Contrariando outras publicações, verificaram um importante progresso na saúde materna mexicana com respectivo decréscimo de 36,6% na RMM entre 1990 e 2010, queda maior que na taxa de abortos provocados entre 2002 e 2008 (22,9%), afastando-a como vilã da RMM: a legalização do aborto no México ocorreu em 2007.

Outro contundente estudo avalia o declínio da RMM no Chile (KOCH e cols, 2012)2 demostrou que, após da proibição do aborto naquele (1989), houve uma redução na RMM de 41,3 para 12,7:100.000 nascidos vivos (dados do Instituto Nacional de Saúde do Chile - estatísticas vitais, 1957-2007). Nesta série de 50 anos, o declive na RMM não se alterou depois da lei do aborto, mas decorreu de iniciativas que levaram a maior utilização das facilidades do sistema de saúde chileno, mudanças no comportamento reprodutivo e melhoria nos serviços de saúde pública. Os autores enfatizam que a redução na TMM não se relaciona ao status de legalidade do aborto, pelo contrário, mesmo tendo uma das legislações menos permissivas do mundo quanto ao aborto eletivo, o Chile possui uma taxa quase nula de morte materna por aborto, desafiando o mito de que a restrição do aborto leva a milhares de mortes2.

Da mesma forma, a RMM no Brasil apresentou uma drástica redução nas últimas décadas3 mesmo sem a legalização do aborto: era aproximadamente 500:100.000 em 19784 contra 68 em 20105. Se não bastasse, apenas no período de 1990 até 2010 houve um decréscimo de 51% na RMM conforme o relatório mundial de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS)6, evidenciando que a mortalidade materna decorrente de abortos provocados não é um caso de saúde pública como alegou o presidente do CFM7,8.
Por outro lado, curetagem uterina é procedimento corriqueiro na Obstetrícia, sendo realizada após casos de aborto, quer sejam espontâneos ou não, com a finalidade de evacuar o útero. Em geral, é realizada em abortamentos acima de 8 semanas, uma vez que nas idades gestacionais inferiores ocorre frequentemente a expulsão espontânea aborto. E Considerando que cerca de 30% das gestações terminam em perda espontânea, teremos então uma curetagem para cada dois bebês que nascem! Como no Brasil nascem cerca de 1.000.000 de bebês/ano, justifica-se a elevada incidência de 250.000 curetagens/ano sem, contudo vinculá-las obrigatoriamente à mortalidade materna, tampouco ao aborto provocado.

Outro aspecto dramático é a chance de repetição do aborto provocado, uma vez que sua legalização gera nas pessoas uma percepção de que esta atitude não é problemática e também que não há restrições repeti-la. Como exemplo, na Suécia o aborto é permitido até a 18ª semana, podendo estender-se até a 22ª como exceção. Um fato estarrecedor é que após a liberação do aborto em 1975 houve duplicação nos casos de repetição, que variou de 3-10 abortamentos pela mesma mulher9. Na Suécia 20,8% de todas as gestações são interrompidas.

Também não se pode afirmar com fundamentos técnicos que há menores riscos caso a interrupção ocorra até 12 semanas, já que este prazo poderia ser indistintamente recuado para 11 ou postergado para 13 semanas, além do que também não considera o aumento das frequentes complicações psíquicas, como a elevação do número de suicídios, de depressão, de abuso de álcool, adicção, conflitos conjugais e câncer de mama10.

Considerando motivos que justifiquem o aborto provocado, o CFM “analisa” aspectos éticos sobre os casos em que o aborto é permitido no Brasil e assevera que "são incoerentes com compromissos humanísticos e humanitários, e paradoxais perante a responsabilidade social e os tratados internacionais assinados pelo governo brasileiro"7. Mais uma vez nota-se um equívoco, pois o Brasil é signatário do Pacto de São José da Costa Rica pelo decreto 678/1992 que tem poder constitucional e que pactua “que toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei, em geral desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”11.

Paradoxal é o médico assumir postura favorável à morte, pois que no período fetal há exuberante vida. Além do mais, a prática médica é norteada pelo juramento de Hipócrates, segundo o qual “A ninguém darei por comprazer nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.” Ademais, aos espíritas é impensável uma posição diferente da absoluta defesa da vida.

Independente do posicionamento das instituições em nosso país, exerçamos cidadania e fé, posicionando-nos claramente neste iminente equívoco que se pretende e nos dediquemos a iniciativas a nosso alcance. Gestação indesejada e na adolescência, planejamento familiar, psiquismo fetal, namoro, projeto reencarnatório, dentre outros temas, devem ser estudados universalmente. Conforme exorta Emmanuel, que para se abordar as questões de sexo é importante estabelecer algumas regras, como “Não proibição, mas educação. Não indisciplina, mas controle. Não impulso livre, mas responsabilidade. Fora disso, é teorizar simplesmente, para depois aprender ou reaprender com a experiência.”12

Referências:

1 - Koch E, Aracena P, Gatica C, Bravo M, Huerta-Zepeda A e Calhoun B. Fundamental discrepancies in abortion estimates and abortion-related mortality: A reevaluation of recent studies in Mexico with special reference to the International Classification of Diseases. Intern. J Women’s Health. 2012:4 613-623) disponível em http://dovepress.com/articles.php?article_id=11688 acessado em 23/04/2013.

2 - Koch E, Thorp J, Bravo M, Gatica S, Romero CX, Aguilhera H e Ahlers I. Women’s educational Level, Maternal Health Care facilities, Abortion Legislation and Maternal Deaths: A Natural Experience in Chile from 1957 to 2007. PLoS ONE7(5): e36613. Doi:10.1371/jornal.pone.0036613 disponível em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0036613 acessado em 23/04/2013.

3 - Rocha JA & Novaes PB. Uma reflexão após 23 anos das recomendações da Organização Mundial da Saúde para parto normal. Femina. 2010; vol 38(3):119-126.

4 - Bouvier-Colle MH. Mortalité maternelle. Encycl Méd Chir (Editions Scintifiques et Médicales Elselvier SAS, Paris, Obstétrique, 5-082-d-10, 2001, 9p.


6 – WHO, UNICEF and FNUAP. The World Health Report – Health Systems Financing: The Path to Universal Coverage. ISBN 978 92 4 068480 5 disponível em http://www.cplp.org/Default.aspx?ID=316&Action=1&NewsId=1637&M=NewsV2&PID=304 acessado em 23/04/2013.

7 – Formenti L, fabrini F e Bassete . Apoio do CFM ao aborto já enfrenta protestos antes de chegar ao Senado. J estado de São Paulo. Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apoio-do-cfm-ao-aborto-ja-enfrenta-protestos-antes-de-chegar-ao-senado-,1011804,0.htm acessado em 23/04/2013.

8 – J O Povo on line. CFM apoia direito a aborto até 12ª semana e reabre debate no Congresso disponível em http://www.opovo.com.br/app/opovo/brasil/2013/03/22/noticiasjornalbrasil,3026533/cfm-apoia-direito-a-aborto-ate-12-semana-e-reabre-debate-no-congresso.shtml

9 – Sweden. Official Statistics of Sweden. Statistics and Medical Care: Induced abortions 2009(2010). National Board of Health and Welfare. ISBN 978-91-86585-24-2.

10 – Shah I, Ahman E. Unsafed abortion: global and regional incidence, trends, consequences and challenges. J Obstet Gynaecol Can. 2009. 31:149-1158 on line.

11 – Brasil. Decreto nº 678 de 6 de novembro de 1992 promulga a Convenção Americana sobre Direitos humanos (Pacto de São José da Costa Rica) de 22 de novembro de 1969.


12 – Emmanuel pela psicografia de Xavier FC. Vida e Sexo in Vida e Sexo. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira. 1970. 26ed, p9-11.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SER CONTRA A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO DENTRO DO MOVIMENTO DE HUMANIZAÇÃO DO PARTO E NASCIMENTO.

Desde 2010 milito e trabalho dentro do movimento de humanização do parto e nascimento. Este movimento, para aqueles que não sabem, visa promover um atendimento de respeito e qualidade à mulher em seu processo de parto, combate a violência obstétrica e a cesárea sem indicação clínica, prima pela autonomia da mulher e pelo seu protagonismo durante o nascimento de seu bebê, baseia-se nas recomendações da OMS, do Ministério da Saúde e nas evidências científicas.

Dentro deste movimento, crescente em nosso país, a temática da legalização do aborto é constantemente trazida, visto que uma mulher em processo de abortamento, seja este espontâneo ou intencional, necessidade de atendimento obstétrico. A temática muitas vezes é trazida sob a alegação de que a mulher deve ter total autonomia sobre seu corpo e pode decidir sobre a continuidade ou não de uma gestação. Também são trazidos tópicos referentes à violência obstétrica sofrida por esta mulher em abortamento, e, ainda, a questão de a clandestinidade do aborto favorecer as elevadas taxas de mortalidade materna, visto que a mulher que quer abortar é forçada a procurar e a se submeter a um serviço sem qualidade e fiscalização o que, muitas vezes, tem um final trágico para sua própria vida.

Bem, é dentro deste contexto que trago o meu posicionamento contrário à legalização do aborto e exponho os meus porquês.


SOBRE A AUTONOMIA DA MULHER

Sim, eu sou totalmente favorável à autonomia da mulher sobre seu corpo. É por isso e para isso que já fui à rua quatro vezes em atos e manifestações do movimento de humanização do parto, e que trabalho voluntariamente em diferentes ações ligadas ao tema. A grande questão é que quando falamos em aborto não falamos apenas do corpo da mulher, falamos também do corpo do bebê, do embrião, do feto, enfim, falamos de outra pessoa.

É importante considerar que a autonomia da mulher sobre seu corpo já foi exercida no início deste processo, quando ela consentiu com o ato sexual que culminou na gravidez. Estamos considerando aqui estes casos, não os de violência. Portanto já houve esta autonomia sobre seu corpo.
Aqui é um ponto em que muitas questões surgem, afinal, há de fato autonomia quando falamos de uma mulher sem o devido esclarecimento e acesso aos métodos contraceptivos eficientes? Há de fato autonomia quando falamos de uma mulher menor de idade? Há de fato autonomia quando falamos de uma mulher fragilizada e marginalizada pelo sistema, sem autoestima suficiente para a não banalização do ato sexual? Reflitamos, e repensemos sobre isso logo mais.

Mas considerando que eu me relacione sexualmente com um parceiro por livre e espontânea vontade, consciente do maior ou menor risco de uma possível gravidez dependendo do método contraceptivo que esteja usando, e o resultado disso seja uma gravidez fora dos meus planos, que veio na hora errada, no lugar errado e da pessoa errada. Tenho eu, agora, o direito de dispor desta vida? Aliás, isso é uma vida, ou só um amontoado de células? Quando começa a vida?

 “Estudando o feto, no interior do útero materno, pude comprovar que é um ser humano com todas suas características a quem deve ser outorgado todos os privilégios e vantagens que desfruta qualquer cidadão na sociedade ocidental.” Esta afirmação é do Dr. Bernard N. Nathanson, médico norte americano que liderou o movimento para a legalização do aborto em seu país, dirigiu a maior clínica de aborto do mundo situada em Nova York e então foi trabalhar como coordenador do serviço de Medicina Fetal em outro hospital. Ali, diante de fatos e comprovações científicas, ele mudou de lado. Para saber mais sobre esta história, basta colocar o nome dele no Google. Para aqueles que desejam ir um pouco mais profundo, sugiro que assistam o filme produzido por ele, cujo título é “O Grito Silencioso”, basta procurar no youtube. 

Hoje, além da medicina fetal, há conceitos referentes a registros embrionários, memória celular, psiquismo fetal, psicologia pré-natal, psicanálise de bebês; todos levando-nos para bem perto da verdade de que o feto é sim um indivíduo como afirmou o Dr. Nathanson.

Em sendo o feto um indivíduo e a mulher que o gesta também um indivíduo, e em tendo o Estado que legislar em uma situação de conflitos de interesses (o aborto), fica claro que o papel do Estado é resguardar e primar pelo direito do lado mais frágil, menos favorecido, desprovido de condições de defender-se sozinho. Neste caso, o feto. É assim, que acontece em várias outras situações da vida, é assim que temos hoje o estatuto da criança, do adolescente, do jovem, do idoso dentre tantos outros exemplos nos quais cabe ao Estado preservar o direito do menos favorecido e resguarda a vida com um bem inalienável.
Portanto, eu realmente estou convencida de que não, a mulher não tem o direito de escolher se o feto que vive em seu útero deve continuar vivo ou morrer. Isso não é o mesmo que chamar a mulher de chocadeira humana, como dizem alguns defensores do aborto, tão pouco desconsiderar a necessidade de assistência a uma mulher que engravidou e não desejava a gravidez.

Possuir um útero saudável e praticar o ato sexual trará sempre a possibilidade em potencial de se gerar uma vida. Não há como eu imaginar que isso nunca possa acontecer comigo. É uma questão de responsabilidade. Responsabilidade sobre meu corpo e minha sexualidade. Se alguns insistem em ver isso como condenação, “oh, então a mulher que faz sexo por prazer está condenada a ter que carregar um bebê que não deseja”, estão simplesmente desconsiderando a responsabilidade da mulher sobre suas escolhas. É preciso parar com essa crença de que somos mulheres e podemos tudo. Não podemos tudo, e isso não tem nada a ver com o fato de sermos mulheres. É que ninguém pode tudo nunca! Todos têm seus limites e precisam dar conta de suas escolhas e responsabilidades. Se no nosso caso a conseqüência de uma escolha impensada é um filho, então, assumamos o filho ao invés de abortá-lo.


SOBRE A QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA E A MORTALIDADE MATERNA

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), “morte materna” é todo falecimento causado por problemas relacionados à gravidez ou ao parto ou ocorrido até 42 dias depois. No Brasil, por exemplo, a taxa de brasileiras que morreram na gestação, no parto ou em decorrência de suas complicações em 2013 foi equivalente a 69 a cada 100.000 nascimentos. Isso representa quase o dobro da meta assumida nos Objetivos do Milênio traçadas pela ONU — chegar em 2015 com, no máximo, 35 mortes a cada 100.000 nascimentos.

Muitos alegam que o grande causador destes elevados índices são os abortos clandestinos realizados em nosso país, e que, conseqüentemente, legalizando o aborto tais números reduziriam.
No mundo da humanização do parto estamos habituados a nos embasar na ciência para mostrar a necessidade de mudança no sistema obstétrico brasileiro. Logo, vejamos o que dizem alguns estudos e pesquisas publicados sobre a temática aqui em questão.

Um estudo realizado no México mostra uma significativa redução da mortalidade materna durante o período compreendido entre os anos de 1990 e 2010.  Esta redução é bem maior do que o número de abortos clandestinos realizados no país, o que nos mostra que não precisamos legalizar o aborto para reduzir a mortalidade materna! Aqui está o link deste estudo para os que queiram se aprofundar: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23271925

Outro estudo, realizado no Chile, mostra uma significativa redução da mortalidade materna naquele país ao longo de 50 anos. No meio deste longo caminho, o aborto foi proibido no Chile e a taxa de mortalidade maternidade continuou caindo significativamente! O estudo conclui que não há relação entre o declínio da mortalidade materna e a legislação sobre o aborto. Sendo sim, responsáveis por menos mortes de mulheres que gestam e parem, a melhoria na saúde pública e na educação destas mulheres! O link deste estudo está aqui: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0036613 .

Importante também é analisarmos a situação de nosso país, onde desde a década de 90 o índice de mortalidade maternidade caiu 43%, sem que para isso precisássemos legalizar o aborto (dados da ONU segundo relatório divulgado pela OMS em maio deste ano, veja link: http://www.onu.org.br/cai-a-mortalidade-materna-no-mundo-aponta-oms-reducao-no-brasil-chega-a-43/ ) . Nossa situação melhorou muito mas continua péssima, é fato. O que não é fato é que a legalização do aborto será a grande responsável pela melhora de nossos assustadores índices de mortalidade materna.

Um segundo relatório da OMS, publicado nesta mesma data e que analisa as causas da mortalidade materna ao redor do mundo, aponta o impacto de condições médicas preexistentes – como diabetes, aids, malária e obesidade –  sobre a saúde da gravidez, sendo responsáveis por 28% das mortes deste tipo no mundo. Link deste relatório: http://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(14)70227-X/abstract

Assim, vamos desconstruindo a crença de que legalizar aborto é o que permite reduzir taxa de mortalidade materna! Assim como precisamos de dados e pesquisas para desconstruir crenças ao redor do atendimento ao parto!

Outro aspecto a ser analisado é que a legalização gera nas pessoas a percepção de que esta atitude não é problemática e pode ser repetida indiscriminadamente. Na Suécia, após a liberação do aborto até a 18ª semana de gestação em 1975, houve uma duplicação nos casos de repetição, que variou de 3 a 10 abortamentos realizados pela mesma mulher (SWEDEN. Official Statistics of Sweden. Statistics and Medical Care: Induced abortions 2009 (2010). Estocolm 2009).

É ingênuo pensar que isso não trará conseqüências para a saúde física e mental da mulher. Um trabalho realizado na Noruega e publicado na renomada revista BMC Medicine procurou mostrar a diferença na saúde mental das mulheres de seu país que provocam o aborto e as que vivenciam um aborto espontâneo. É válido destacar que na Noruega o aborto provocado é socialmente aceito há décadas, não havendo qualquer pressão externa para que a mulher que o deseje não o pratique! E ainda, o que motivou o estudo foi a constatação de que o aborto é um evento que provoca agravamento na saúde mental das mulheres, tais como ansiedade, depressão e síndrome pós-traumática. Todas a mulheres estudas foram avaliadas dez dias, seis meses, dois anos e cinco anos após o aborto. Os pesquisadores então observaram que as mulheres que tiveram abortos espontâneos apresentaram elevado score de ansiedade e impacto traumático nas avaliações realizadas dez dias e seis meses após o evento, apresentando importante melhora nas avaliações tardias; o que é compatível com o que se chama de um evento traumático bem resolvido. Nas mulheres que tiveram o aborto provocado, a situação não é a mesma, apresentado estas elevados scores de saúde mental nas avaliações feitas a longo prazo, acusando sentimentos de negação, culpa e vergonha e permanecendo com indicadores de saúde mental significativamente piores do que a população em geral. Caracterizou-se assim um evento traumático mal resolvido, gerador de distúrbios emocionais duradouros. Link deste trabalho: http://www.biomedcentral.com/1741-7015/3/18/prepub .

Logo, quando falamos em saúde pública é importantíssimo considerar todos estes aspectos e dados. Fica então o questionamento: a descriminalização do aborto no Brasil trará de fato mais saúde às nossas mulheres?

Quando se pensa em saúde pública e epidemiologia, aprende-se que o melhor caminho é sempre a prevenção e a educação. Aqui voltamos ao ponto colocado no início deste post sobre a autonomia da mulher. Acredito que a autonomia também venha com a educação.

A mim não parece ser uma atitude inteligente querer eliminar um problema sem atacar a sua causa.


SOBRE O AMPARO À MULHER QUE ABORTA

O que me motivou a escrever este post, colocando de forma organizada e clara o meu ponto de vista sobre o tema da legalidade do aborto, foi um questionamento direcionado a mim quando expressei minha opinião contrária à legalidade do aborto em um grupo de discussão sobre parto humanizado: “Você realmente concorda Inês que a mulher que aborta deve ser presa?”.

Pois bem, o que dizer sobre esta mulher? E o que dizer sobre aquela que pari o filho e o coloca em um saco de lixo preto e atira dentro da lagoa, joga na lata de lixo ou no terreno baldio. E aquela mulher que abandona o filho bebê sozinho dentro de casa e sai sem prover para ele os cuidados essenciais que um recém-nascido precisa para sobreviver. O que dizer ainda daquela mulher que maltrata fisicamente de seu bebê, submetendo-o a torturantes sensações de dor, ou daquela que com o filho já mais crescido o fere e o espanca?

O que dizer e o que pensar de tudo isso?

A minha visão é que são todas mulheres, com eu, como você. Mulheres com capacidade para gerar vida e cuidar dela, mas que por algum motivo se equivocaram e se perderam neste caminho. Não são monstros, são mulheres, são seres humanos e merecem atenção, cuidado, merecem até mesmo e principalmente afeto.
Não por isso, eu vou concordar que as crianças, os bebês, os embriões, os fetos sob sua responsabilidade continuem a sofrer as conseqüências de seu estado de desequilíbrio. Eu amparo a mulher e protejo a criança, usando as ferramentas legais e as estruturas do Estado. É assim que eu vejo esta questão!

Indo um pouco mais fundo na minha opinião pessoal sobre o tema, uma vez que isso foi o motivo de toda esta reflexão, se eu estivesse sentada na posição de júri de um julgamento de uma mulher que abortou, eu dificilmente a condenaria, acreditando que ela errou sim, gravemente, mas apostando que a sua recuperação não virá da prisão e sim da educação e do amor. Pode parecer poético, mas é apenas um caminho mais brando, saudável e justo de resolvermos a questão!

Enfim, assim eu penso e assim eu continuarei a trabalhar pela saúde das mulheres que gestam, pela sua autonomia, pelo resgate da beleza do parto e pela saúde do bebê que chega ao mundo.

Que possamos todos fazer nossas reflexões sobre a temática do aborto desprovidos de preconceitos e posições radicais, que possamos ter a ciência como balizadora de nossos pensamentos e que não falte uma boa dose de amor em nossas conclusões!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Semana Mundial de Respeito ao Nascimento


Termina hoje a Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento – SMRN de 2014. A ideia deste evento é provocar uma reflexão mundial sobre as necessidades de respeito incondicional aos processos individuais de cada mulher no momento do nascimento de seus filhos.
“Parir é poder” é o tema desta 10ª edição, e no contexto brasileiro, a frase representa não somente o empoderamento feminino na busca por uma experiência respeitosa e prazerosa de parto e nascimento – do filho e da nova mãe – mas, principalmente, a saída de um sistema obstétrico violento. O evento busca promover a reflexão sobre outras formas de nascer, que sejam afetuosas, respeitosas e acolhedoras.
A Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento - SMRN, é uma Iniciativa da Alliance Francophone pour l’Accouchement Respecté (AFAR), que ocorre em vários países desde 2004. No Brasil, desde 2008 grupos e entidades ligadas ao movimento de humanização do Parto e Nascimento, vêm promovendo atividades em comemoração a esta semana. 
Para mim, PARIR É PODER porque durante o processo de parto nos deparamos com uma foça selvagem que há em nós e que desconhecemos! A força que um parto com respeito traz para uma mulher é incontestável, e a mulher se sente tão valente e preparada para cuidar daquela criança que trouxe ao mundo que seu poder se amplia, se multiplica. 
PARIR É PODER simplesmente porque é algo que podemos fazer! Podemos dar passagem a uma vida, trazê-la ao mundo! É nosso momento de co-criadoras, somos DEUSAS ao dar a luz a um filho, e isso é sim muito poderoso.
Então, PARIR É PODER! 
E que POSSAMOS PARIR!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Parto Humanizado em Curitiba


Foi em 2009 que tomei contato pela primeira vez com o movimento pela humanização do parto aqui de Curitiba. De lá para cá muita coisa bonita já aconteceu, conquistas nossas – mulheres ativistas e profissionais humanizados, que por um caminho ou outro vamos lançando sementes por onde passamos, vamos deixando marcas de respeito, competência, humanismo, amor!

Desde 2009 diferentes grupos de apoio às gestantes, ao parto natural e às mães com bebês foram criados em nossa cidade. Recebemos em solo curitibano, importantes e renomados profissionais nacionais e internacionais para proferirem palestras e ministrarem cursos. Médicos obstetras e pediatras foram lentamente revendo suas práticas e atualizando suas condutas. Hospitais e maternidades foram se adequando à lei do acompanhante e se familiarizando com o trabalho das doulas. Lindos partos começaram a acontecer nos apartamentos dos hospitais e uma equipe de parteiras urbanas se formou, nos presenteando com a possibilidade de um parto domiciliar planejado!

Ainda temos muito o que avançar e melhorar, é fato. Mas não podemos deixar de reconhecer tudo o que já conquistamos!

SIIIIIIIIIMMMMMIM, nós temos um movimento crescente em nossa cidade e do qual eu me orgulho de fazer parte! Nós participamos de forma muito linda e marcante das três Marchas Nacionais que ocorreram em nosso país, duas em 2012 e uma em 2013 e do ato que ocorreu em 2014. Estamos nos organizando cada vez mais!!! Atualmente temos um grupo que agrega mulheres, homens e profissionais, e que está em contato com o poder público de nossa cidade sugerindo e cobrando mudanças.

Nós já somos muitas e muitos. E seremos tanto mais à medida que nos fortalecermos e nos mostrarmos para o Brasil! Assim seremos cada vez mais facilmente encontrados por aqueles que estão ‘chegando agora’ a este universo mágico da HUMANIZAÇÃO DO PARTO E DO NASCIMENTO.

E antes de relacionar aqui vários links deste belo movimento, quero fazer uma homenagem justa ao Espaço Aobà, berço de tantas de nós, hoje profissionais! Luciana Lima foi de fato muito importante na construção de tudo isso que hoje é realidade em nossa Curitiba!!!

E, ainda, dentre tudo de belo que aconteceu e acontece, não posso deixar de expressar meu carinho mais que especial pelo Grupo Doula Curitiba, uma união destas “mulheres que servem outras mulheres” em prol de nascimentos mais tranquilos, mais conscientes, mais ativos! Nos unimos para que possamos ser ainda mais fortes e presentes no cuidados umas com as outras, o que invariavelmente reflete no cuidado com nossos filhos!




PARA CONHECER MAIS:


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ter filho não é pra todo mundo

Vamos ser francos: quem realmente tem capacidade para se dedicar a uma criança como deveria. Faça a análise antes de ter uma.

Por José Martins Filho, texto original no site Revista Galileu, link:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI236755-17774,00.html#.UmUPDSQOVME.facebook

Será que todos os seres humanos precisam ser pais? Não sei. Cuidar bem de uma criança, além de ser de sumária importância, dá um trabalho danado. Crianças choram à noite, nem sempre dormem bem, precisam de cuidados especiais, de limpeza, de banho, alimentação, ser educadas e acompanhadas até a idade adulta. E, principalmente: crianças precisam da presença dos pais, sobretudo as menores, que requerem a mãe na maior parte de seu tempo. Não é dando dois beijinhos pela manhã antes de ir para a creche, ou colocando a criança para dormir à noite, que será possível transmitir segurança, afeto e tranquilidade. Escuto muito a seguinte frase: “Doutor, o que interessa é a qualidade do tempo junto e não a quantidade”. Duvido. Diga ao seu chefe que você vai trabalhar apenas meia hora por dia, mas com muita qualidade. Certamente ele não vai gostar. Seu filho também não.

Sejamos sinceros, nem todo mundo está disposto a arcar com esse ônus. Talvez seja melhor adiar um projeto de maternidade, e mesmo abrir mão dessa possibilidade, do que ter um filho ao qual não se pode dar atenção, carinho e presença constante. Lembre-se que é preciso dedicar um tempo razoável: brincar junto, fazer os deveres de casa, educar, colocar limites.

Como fazer tudo isso e ainda continuar no mercado de trabalho? Usando seu horário de almoço para comer junto com seu filho. Fazendo visitas na creche durante o dia. Passeando no final de semana, em atividades em que a criança seja prioridade, como praia, parques, jogos em conjunto. Por favor, isso não inclui shopping center.

Sou obrigado a fazer todas essas coisas? Claro que não. Mas ser pai e ser mãe também não é uma obrigação, sobretudo nos dias de hoje em que a vida oferece infinitas possibilidades. Trata-se de uma escolha. E, como toda escolha, pressupõe que você abra mão de outras tantas. O que se propõe? A volta da mulher à condição de dona de casa? Também não. O que se propõe é a conscientização da paternidade e maternidade. A infância determina a vida de todos nós. Ela é fundamental para a existência humana. Na esfera psíquica, os primeiros dois anos significam a base da construção de uma personalidade saudável. A violência, a agressividade, a falta de ética, a amoralidade dos tempos modernos não são apenas fruto de dificuldades econômicas e sociais, mas da falta de amor, educação, limites.

Com a vida moderna, as crianças passaram a ocupar um papel secundário ou terciário na vida familiar. Lembre-se de que o futuro da humanidade vai depender dessas crianças que, provavelmente, chegarão aos 100 anos de idade. Fico triste quando, no consultório, a mãe não pode estar presente, ou o pai. E nem mesmo a avó: apenas a babá.

Deveríamos fazer uma análise tranquila antes da maternidade ou da paternidade. Queremos mesmo mudar nossa vida? Vamos ter condições de participar intensamente da vida desse novo ser? Se lograrmos essa consciência, tenho certeza de que o mundo irá melhorar. 

José Martins Filho é médico pediatra, autor do livro A Criança Terceirizada, professor e pesquisador do Centro de Investigação em Pediatria

E para complementar, assista ao vídeo de José Martins Filho falando sobre A Criança Terceirizada:

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Por mim, por você e principalmente por nossas filhas e netas


Texto de Gisele Leal, autora do site Mulheres Empoderadas.  Link do post original: 
No próximo final de semana, dezenas de cidades Brasileiras sairão às ruas e praças numa festa coletiva e social pela Humanização do Parto e Nascimento.
E eu vou estar lá. Por mim, por você e principalmente por nossas filhas, noras e netas. Por nossas irmãs. Por nossas amigas. Por  toda mulher e bebê deste país.
Sim, é um discurso emocionado mas não é demagógico. É real e vivo. Corre nas veias. Corta e sangra quando sabemos de uma mulher, semi anônima, que nem conhecemos pessoalmente, mas que sofreu violência obstétrica.
É porque acreditamos que o nascimento deve ser o mais marcante dos momentos de um ser humano. E é por acreditar  que tanto a mulher (que nasce mãe) quanto o bebê que estréia na vida fora da barriga, merecem e tem o direito de serem os protagonistas de uma história que começa ali – no parto.
Portanto, junte-se a nós. Seremos milhares Brasil a fora. Humanização é direito! Não é favor! Já diz a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde! Não é invenção de ativista xiita e radical. É prática em países de primeiro mundo.
Se sua cidade  não está na lista abaixo, você mesma pode AGORA chamar uma marcha! É simples! Siga essas dicas que montamos no grupo de coordenadoras do Facebook:
1) Você precisa de algumas pessoas dispostas a ser a voz das mulheres e responder pelo movimento nacional e na sua cidade. Que tenham compreendido bem o assunto, falem bem, com segurança, pois provavelmente serão entrevistadas. Tem que ter o nome, fb, telefone e email dessas pessoas
2) Faça contato com a coordenadora local de alguma das marchas e peça pra ela te adicionar ao grupo nacional das coordenadoras. Se for uma coordenadora amiga sua fica mais fácil.
3) Informar o grupo nacional os dados de local horário e contato com imprensa pra incluir no release nacional.
4) Combine uma reunião (para ontem) com todos possíveis interessados em participar. Faça uma pauta com um check list dos itens a serem providenciados para acontecer o evento e para designar funções.
5) Crie um evento no facebook. Personalize a foto do perfil e a capa do evento com as artes disponibilizadas por todos.
6) Reunir o máximo de apoios de entidades e reunir esses nomes num documento armazenado na “nuvem” – criar uma planilha no googledocs e ir atualizando. Quem responde pela entidade tem que constar (com contatos). E alguém tem que se encarregar de atualizar esse documento. Nome, email, fb e telefone.
7) Se forem pedir doações, vakinhas, etc, tem que ter alguém responsável por receber doações para financiar os gastos e registrar tudo que for gasto, peçam recibo, para que possa ser ressarcido, se houver caixa.
Os cartazes da marcha anterior podem ser reaproveitados, mas outros podem ser feitos. Tem que ter gente disposta a confeccionar o maior número de cartazes para usar na hora. As faixas devem ser levadas!
9) Eleger alguém para cuidar da autorização da Prefeitura. Alguém precisa cuidar disso, garantir que estará tudo certo para o dia. Ligar pra lá, preencher o formulário, com antecedência
10) Eleger alguém para cuidar da confecção e venda das camisetas
11) Ter um membro para cuidar da assessoria de imprensa
12) estabelecer se será um manifesto informativo (entrega de panfletos para as pessoas em um local específico por exemplo), um manifesto para chamar atenção (passeata) ou um manifesto de reivindicação (entregar uma reivindicação por escrito – pode ter um abaixo assinado junto – a alguma entidade por exemplo)
13) Pilhar o grupo do evento com informações, artes, chamar o pessoal. Lembre-se: apenas uma parte das pessoas que confirmam presença comparecem!! Então quanto mais pessoas confirmarem, maior a chance de vc ter um evento cheio.
Atos já confirmados em 22 cidades!!!! Você não pode ficar de fora! Se sua cidade já tem um evento, participe! Se não tem, crie um evento e vá pra rua você também!

Se você ainda não sabe se irá se manifestar, assista ao vídeo e venha conosco!!!!


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quando a medicina adentra a tenda vermelha - parte 2

Eu estava indo para o mesmo hospital no qual minha filha nascera há quatro anos por uma cesárea totalmente desnecessária, e apesar desta coincidência, a situação não se repetia. Eu era outra mulher, muito mais consciente e informada do que aquela de quatro anos atrás. Eu sabia o que estava fazendo, sabia para ‘onde’ estava indo e o que me esperava lá!

Chegamos ao pronto socorro do Hospital Santa Cruz e eu estava na fase de expulsivo já havia três horas! As contrações de puxo vinham com frequência e a única coisa que me aliviava era seguir o fluxo da força. Assim que entramos no pronto socorro veio uma contração e eu segui fazendo a força, o som, agachando, enfim, tudo aquilo que vinha fazendo em casa para lidar com todas aquelas sensações. Mas de relance eu olhei para a recepção do hospital e todos me observavam. Não sei exatamente com cara de que me olhavam porque imediatamente, ao me perceber sendo observada, eu pensei “entra na bolha”.

A “bolha” é uma imagem que usamos para explicar para as mulheres como elas podem evitar que as interferências do ambiente hospitalar afetem seu processo de parto. Entrar na bolha, se concentrar em si mesma e deixar o resto pra lá. Ali era eu tendo que fazer o que tantas vezes expliquei!

Então no final de um corredor, na parte da obstetrícia, apareceu o Dr. Álvaro e fez sinal para irmos até ele. Nooooooossa, eu nem acreditava que estava vendo aquele homem. Confesso que me deu um alívio. Eu não teria que ficar dando explicações, me justificando ou me defendendo. Ele sabia de tudo e apoiava minhas escolhas. Ele não me trataria como louca, irresponsável, egoísta ou qualquer coisa neste sentido.

Ao vê-lo eu lembrei da nossa primeira consulta de pré-natal. Eu já estava com seis meses, e foi quando decidi que gostaria que ele fosse o médico a me dar suporte se eu precisasse. Então em seu consultório, após conversarmos, ele falou assim “eu posso sim ser seu médico, mas é preciso que você saiba que se você precisar de mim as coisas já não estarão tão naturais”. Não me lembro exatamente das palavras, mas a mensagem era “eu vou precisar intervir”. Sim, ok! Mas eu sabia que ele faria isso com respeito e aqui eu quero fazer uma pausa no meu relato para contar como eu decidi que o Álvaro seria meu médico.

Durante minha caminhada como doula eu consegui um estágio voluntário em uma maternidade pública aqui de Curitiba, a Maternidade Vitor Ferreira do Amaral. Foi apenas uma semana, mas uma semana em que eu vi muita coisa e uma das coisas mais lindas que eu vi, foi o Dr. Álvaro atendendo ao parto de uma menina de catorze anos. Naquele dia havia muitas mulheres em trabalho de parto. Todas as camas estavam ocupadas e aquela menina estava com sua mãe. Ela passou seu trabalhando de parto inteiro segurando na mão da mãe, chorando bem baixinho, parecia um bichinho acuado. Ela dizia para a mãe dela que iria morrer, que doía de mais. Então esta menina, que estava vivendo este rito de passagem que é o parto, estava com o bebê coroando e o Álvaro veio atendê-la. Aí ela começou a gritar – TOTALMENTE NORMAL! Ela tinha apenas catorze anos e sua vida iria mudar radicalmente a partir daquele momento. Então uma outra médica que também atendia naquele dia e que estava fazendo uma sutura no leito ao lado, se levantou e veio até a menina dizendo para ela não gritar daquela forma pois isso não ajudaria o bebê. O Álvaro gentilmente disse à médica que se concentrasse na sua paciente, que ele estava cuidando da menina e a “autorizou” a gritar se assim quisesse. EU ACHEI AQUILO O MÁXIMO! E então o parto aconteceu, com muito respeito, muita delicadeza, bem suave, e aquela menina se tornou mãe através de um momento tão bonito. Depois eu fui vê-la na sala de recuperação, e ela estava radiante! Sentada na maca, dando de mama para seu bebezinho. Ela era só sorriso! Eu perguntei o que ela havia achado do parto, e ela, que não parecei mais uma menininha, disse que havia sido ótimo, e que o doutor foi maravilhoso. Então ali eu percebi que aquele médico não tinha apenas o conhecimento e o domínio das técnicas da obstetrícia (o que deveria ser básico para todos os profissionais, mas não é), ele também tinha respeito pela mulher e pelo bebê que estavam diante dele. Aquele nascimento me marcou muito. "Dr. Álvaro, você fez muita diferença na vida daquela menina/mãe, na minha vida e tenho certeza que na de tantas outras mulheres!"

Voltando ao meu parto...
Não tenho fotos de quando fui para o hospital.
Usei o cartaz do filme pois todo parto bem vivido
 é um renascimento, e eu tive esta graça! 



Enfim, me sentir acolhida e respeitada pelo médico que me atendia foi muito, muito bom. Eu não estava preocupada com nada, confiava em todos que estavam comigo. Eu podia só me concentrar no meu parto e isso foi fundamental.  

Lembro de ver a Adelita conversando com o Álvaro, passando as informações para ele enquanto meu marido ficava comigo e minha mãe cuidava da internação.  Então o Álvaro me examinou ainda no PA e o Lucas teve mais uma desaceleração dos batimentos. Quando ele finalizou o exame disse para a enfermeira que já podia subir comigo para a sala de parto e que ele iria avisar o anestesista.

“Anestesista? Como assim? Mas eu não quero tomar anestesia....” Não lembro exatamente as palavras que usei, mas o fato é que quando eu fui para o hospital eu não pensei em anestesia.... Eu não queria anestesia, eu queria sentir meu filho nascer, não queria estar anestesiada!

Então o Álvaro me olhou, sem grande alteração ou surpresa e disse: “eu preciso que você esteja relaxada porque vou precisar manipular a região”.

Ele poderia ter dito várias coisas e de várias maneiras par que eu me sentisse amedrontada, incapaz, assustada, mas ele foi muito assertivo. Deixou a decisão comigo, sem pressionar ou forçar nada, ele simplesmente foi sincero. Aquilo foi ótimo e de fato seria impossível ficar “relaxada”. Eu podia fazer força, caminhar, me mover, respirar, vocalizar, mas ficar deitada em uma cama e relaxar enquanto ele manipulava a “região” (esta palavra eu trocaria, doutor!)  eu não conseguiria.

Confesso que aquele foi o momento mais difícil do meu parto, mais difícil do que ter que ir para o hospital. Acho que por breves segundos eu fiquei pensando e minha ficha foi caindo.... Sim, eu precisava daquela anestesia.

“Tudo bem”, acho que foi o que consegui dizer e então fomos caminhando junto com a enfermeira para o centro obstétrico. A todo o momento eu tinha que me lembrar da bolha. Meu olhar não podia cruzar com o de ninguém que não fosse o Márcio, a Adelita e o Álvaro. Eu não queria ter que me defrontar com a reprovação das pessoas a aquela altura do campeonato, então fiz muita questão de só prestar atenção em mim, nada mais me importava.

Entrar no vestiário, colocar a camisola, ver tantas pessoas, escutar vozes perguntando o que “era aquilo” (no caso, eu parindo!), ir para a sala de parto e esperar pelo anestesista. Pobre anestesista! Eu nem sabia quem ele era e já não gostava dele.... tenho vivências muito ruins com anestesistas enquanto doula, então confesso que estava apreensiva.

Então entra na sala o médico anestesista. Não me lembro do rosto dele, se o ver na rua não o reconheceria, mas ele foi incrivelmente gentil e delicado comigo. Ele não entrou na sala com aquela capa de super-herói que os anestesistas costumam usar e falando a clássica “eu vou te tirar deste sofrimento”! Não, ele não foi assim, chegou inclusive a me elogiar! Ufa! Não precisei me defender e ainda saí valorizada, aquilo foi muito bom!!! Será que eles têm noção da diferença que podem fazer em nossa história?

Bem, no momento da anestesia os “acompanhantes da parturiente” precisam sair da sala. Eu já sabia disso e OK. São breves minutos, mas ficar sem uma referência, sem um rosto amigo, sem um olhar acolhedor naquele momento, mesmo que por um minuto é terrível. Foi muito, muito, muito, muito ruim não poder segurar nas mãos que me sustentavam já há quinze horas. Justamente naquele momento, que estava sendo o mais difícil para mim, eu não tinha meus apoios, eu estava sozinha. Lembro que a sala estava cheia de gente, gente que eu nunca vi na vida e ninguém conseguia ser acolhedor.  Isso de fato é horrível. A gente explica nos cursos de casais mas ali, de novo, era eu vivendo  a influência do ambiente no processo de parto. Que lástima termos que nos contentar com uma estrutura tão precária em relação ao que nós precisamos além das máquinas.

Enfim, aquilo não seria suficiente para me abalar e se era aquilo que eu tinha, paciência. Uma enfermeira ficava pra lá e pra cá em cima de mim, de um braço para o outro, falando que eu não podia me mexer, que..... Então veio uma contração e eu catei ela, segurei bem forte em seus ombros, olhei bem firme e comecei a fazer os sons que uma mulher com puxo, sentada, sem poder se mexer, faz.  Acho que a cena deveria estar hilária! A mulher deve ter ficado desorientada. Eu olhava para ela e não encontrava nada, mas precisava olhar para alguém. Ela ficou em silêncio (o que foi ótimo!) e esperou a contração passar...... kkkkkkk!

Em nenhum momento eu senti medo, nem mesmo fiquei nervosa ou angustiada. Aquele cenário era conhecido para mim e eu não estava esperando mais, aliás o anestesista já havia me surpreendido positivamente e eu já estava super feliz, me considerando no lucro! Então ele falou “pronto, agora você vai começar a sentir que vai aliviar”.

Uaaauuuu!!! Realmente aliviou!!!! Meu povo entrou na sala (Márico, Adelita e Álvaro) e a galera foi saindo. Ai que bom! Sentir um pouco de alívio nas dores não foi ruim, mas o parto tinha perdido seu sabor. Eu não sei explicar, mas o parto havia deixado meu corpo. Agora eu sabia o que tinha que fazer, mas não sentia tudo aquilo que ..... nossa, não tem como explicar! Acho que é como você estar transando bem gostoso e de repente alguém entra e acende a luz, ou seja: “ACABOU A FESTA”!

Sei que muitas mulheres estão torcendo o nariz e muito médicos ficarão ofendidos com esta minha colocação, mas para mim foi assim. E a festa dos meus hormônios em meu corpo de fato tinha acabado! Sou muito grata ao anestesista que me atendeu e aos médicos que descobriram este recurso, eu precisei e usei, mas que tira o sabor do parto tira, OK!

O Álvaro nos deixou um pouco sozinhos na sala para ver se o bebê girava sozinho agora que minha “região” estava relaxada. A Adelita e o Márcio me ajudaram o tempo todo e por isso eu conseguia acocorar, ajoelhar, ficar de quatro..... não paramos! Eu me movimentei o tempo todo. Não sei quanto tempo se passou e o Álvaro veio para examinar, o bebê estava na mesma posição, não havia girado nada, mas estava bem, não tinha mais feito desacelerações. Então ele decidiu ajudar com uma manobra com os dedos e durante as contrações eu fazia bastante força e ele tentava girar a cabecinha do bebê. Tentou, tentou e nada.... bebezinho na mesma posição. Batimentos bem, eu bem, então ele saiu da sala de novo para nos deixar mais um pouco e nós continuamos o “trabalho”.

As enfermeiras não ficavam entrando na sala e isso foi muito bom! Pudemos ficar ali à vontade, seguindo o ritmo das contrações e esperando para ver se o Lucas girava para nascer. Hoje vejo o quanto foi importante para mim ficar aquele tempo ali antes de qualquer intervenção mais invasiva. Confesso que quando fui para o hospital achei que já ia chegar e o médico usaria o fórceps e vamos logo acabar com isso! Mas o Álvaro foi paciente e isso foi muito importante para eu ir assimilando o que estava acontecendo. Fomos progressivamente usando os recursos que tínhamos e eu tive tempo de ir entendendo tudo. Não falo de um entendimento racional, mas sim de uma vivência do corpo. “Doutor Álvaro, mais uma vez você foi muito assertivo!”

O tempo foi passando e eu não tinha a menor noção dele, mas em dado momento meu marido começou a ficar angustiado. Parecia que as coisas não saíam do lugar e ele começou a ficar nervoso, querendo que a Adelita chamasse o Álvaro logo. Lembro que eu falei ‘calma amor, se o Álvaro nos deixou aqui é porque isso é o melhor para o bebê. Quanto mais tempo pudermos esperar melhor para o Lucas tentar nascer sem maiores intervenções’. Só mesmo anestesiada para conseguir ter esta postura de doula, kkkkkkk.

O fato é que o efeito da anestesia começou a passar e o quadro não havia mudado em nada desde que entramos no hospital. O Lucas não estava respondendo aos meus movimentos de quadril nem às manobras manuais do médico. Era hora de começar a intervir um pouco mais. A decisão foi usar o vácuo extrator para o bebê girar, assim não precisaríamos do fórceps.

Precisei que o anestesista me desse uma nova dose pois o efeito da anestesia já estava passando. E o MONTE DE GENTE começou a entrar de novo. Eu não lembro bem, mas a sensação que eu tinha era de que a sala estava lotada, tinha muitas pessoas de máscara e touca que eu não conhecia e não sabia para que estavam ali, aquilo é muito invasivo, é constrangedor! “A BOLHA INÊS, VAI PARA BOLHA!” É mesmo! Agora, na minha bolha estávamos eu, o Márcio, a Adelita e o Álvaro.

Agora estava muito perto do meu filho nascer, e eu já queria muito conhece-lo. Falei para o Álvaro, na verdade só para lembrar, que eu não queria episio (óbvio! E quem não sabe o que é isso procura no google: episiotomia). E ele respondeu, “eu não vou fazer”! Então ele posicionou o vácuo e quando vinha uma contração de puxo eu aproveitava para fazer muita força e ele puxava com o vácuo. Eu não sentia dor alguma, mas sentia todo o meu corpo escorregar para frente na cama. O puxo do vácuo é muito forte e eu me deslocava por completo. Quando a contração terminava parávamos tudo e esperávamos a próxima. Fizemos isso várias vezes, segundo a Adelita foram oito tentativas. A contração vinha, eu ajudava fazendo bastante força e o Álvaro puxava, mas o Lucas não respondia à manobra, ele não girava.

Uma leve tensão parecia começar entrar na minha bolha. Por que ele não girava? Aquilo era muito forte, todo meu corpo se deslocava e ele não respondia..... “Por que ele não gira, por que ele não nasce?”, eu pensei e então senti um tofe. “Nossa, será que é a cabecinha dele?”, mas foi muito estranho e ninguém estava com cara de bebezinho nascendo.... Então perguntei para a Adelita “ele está nascendo?”. “Não”, ela disse, “foi só porque o vácuo escapou da mão do Álvaro”.

“O que???? Como assim???” A cara dela não estava tão tranquila e o Márcio estava chorando. O Álvaro não me olhava. O que estava acontecendo? “Filho, cadê você???? Vem meu amor, vem!!!”  A tensão entrou na bolha e pela primeira vez eu senti medo.” Que droga que esse bebê não gira”, eu pensei.

Então eu vejo a enfermeira entregar o fórceps para o Álvaro e ele fala assim “eu vou fazer uma epsio”. “Tá bom”, saiu da minha boca e tá bom mesmo, eu quero meu filho, porque ele não vem logo? Meu Deus, o que está acontecendo??? Eu comecei a pedir ajuda e amparo para Deus, que ajudasse meu bebê a nascer, que iluminasse o médico que nos assistia.

E então foi muito rápido depois que ele usou o fórceps. Com uma contração saiu a cabeça, lembro do Márcio dizer “Aí amor, aí, ele está nascendo” e na segunda contração ele veio todinho.

UAUUUUUUUUUUUUUUUU, eu vi o Álvaro pegando ele, “como é grande” eu pensei!!!!

Meu bebezão, meu filho, meu amor!


Ainda tem muitas emoções e revelações!
Continuamos na PARTE 3.